Te busco e fecho a cortina quase em um só tempo. Te vejo sorrir, te vejo acabrunhar a cara, te vejo franzir sobrancelha, olhar pra nuvem de chuva, coçar a cabeça. Teu documentário dos dias sem mim se projeta na vidraça, só o som cá não chega. As pestanas cobrem olhos momentaneamente impérvios, um lume regresso lá no fundo. Algumas vezes pensei que tinha vizinho novo vindo ocupar a rua, mas compreendi que sou eu o novo vizinho que vai chegar. Pena dizer adeus ao teu espetáculo público.

Voltava à janela como quem dissesse, vento, eu te esperava mais sereno hoje, e cerrava-a com gesto seco. Mantinha as persianas afastadas, na noite preta um piscar de avião a velejar. Quem dissera que os anunciantes da previsão do tempo vinham sem engano se enganando ultimamente, teria sido vizinho no elevador? Mais uma vez a chuva não viera, todos suspiram aliviados exceto os atenciosos que dão por sua falta à beira do leito, antes de dormir. Ai, se viesse agora aquele tamborilar macio na minha janela, as gotas sambando a surdina molhada que me embala sono adentro.

Dá meia-volta, disse. Por que bem eu não sei, mas mal a pergunta pousou no pensamento eu já contrariava o imperativo a passo rápido. Fui dar de encontro à grande embora estremecente porta de entrada. Digo grande pois não era a carecida razão, e sim o espírito daquele momento que constatava a estatura, porque de grandeza em verdade só a tinha o capacho. Era uma portinhola como outra qualquer, retilínea, bem-composta, é verdade, mas com ares de que se rebenta com simples pontapé. Mais correto agora era chamá-la de porta de saída; e como era magnífica, insignificante e magnífica a saída que eu me via fazendo no atravessar do seu portal.