L’esprit de l’escalier ne supporte plus de faire les mêmes chemins

Não, isso é brincadeira, né? Arma um esgar reptiliano. Volta a fita, edita, corta-cola, corta-cola, apaga apaga apaga. Rebobina inteira de supetão. Perdem-se no vai-e-volta os achados, respostas, acenos, punhos firmes, resoluções de ano novo; centrifuga-se tudo, espalham-se em surtos certezas e perguntas, nuvens de ruído desfiguram a luz do pensamento. Tomba na descida, sem saber ao certo se era essa mesmo a estação – não tem problema, é só seguir o cardume escada-rolante acima. Não tem cambaleio, o caminho é torto, então compensa. Vá, vá, vá claudicar lá pra longe, que vamos na direção contrária, esforço suficiente, um querido desconhecido a pisar-nos os calcanhares em disfarce de descuido. Se tem quem use as palavras pra forrar algo que já vem lá dentro bem-formado, um retrato vívido e preciso para o qual basta que lhe deem nome, me ponho a pensar como pode. Como conseguem. Que véu finíssimo cobre os olhos de nós que relutamos, bestamente, em tatear no negrume das palavras, agarrar aqui e ali na frustrante tentativa de dar voz a um grito mudo. E no entanto essa tentativa é uma de graça, de rarefeita elegância; algumas vezes até parece que quanto mais feio se erra, mais aplumado é o colchão que recebe o glorioso quedante, mais aquentada é a colcha com que o revestem.

Fisgada no canto da boca: muxoxo mudo. Um sono pesado se alastra, toma conta. Nos olhos aquela queimação, um leve desfoque e uma dor; na planta do pé um estremecimento e uma dor; na cabeça aqui e ali uma dor; no peito uma dor.

Dormir é dar vazão à liberdade. Levantar é teimar em batalha que está perdida, entregar o jogo sem admitir bandeira branca, levar adiante a festa que já acabou; só ficam os copos e garrafas usados, as coisas fora do lugar, reviradas, manchadas, amarrotadas. Contrate-se uma faxineira, ou usem-se as próprias mãos.